domingo, 7 de novembro de 2010

Um mal necessário?

A relação da mídia e o rap nunca foi a melhor e alguns fatos acarretam essa situação


Década de 1990 e o rap explode em São Paulo, Thaide, Dj Hum e os Racionais MC‘S, mexem com as cabeças dos jovens, com músicas agressivas, contra a discriminação dos negros, contra a desigualdade social e criticando o poder. Muitos se sentiram atingidos pelo movimento, dentre eles a Mídia. Sim, os veículos de comunicação até os dias de hoje não têm uma relação muito confortável com o rap.
Mais de 1 milhão de discos vendidos foi a marca atingida pelos Racionais MC’S, sem ter a visibilidade que muitos artistas têm na mídia hoje em dia . Mano Brown e Cia se calavam para a imprensa, enquanto nos palcos traziam a realidade da periferia, com letras como Pânico na Zona Sul e Tempos Difíceis.
Foto Divulgação
Nos últimos anos Brown e outros rappers apareceram mais nos veículos de comunicação. Como a aparição do líder dos Racionais no programa Fantástico da Rede Globo, fazendo dueto com Jorge Benjor. Brown também apareceu na capa da Rolling Stones, revista de grande circulação no país e contou um pouco mais sobre sua vida. Participou  do programa de entrevistas, Roda Viva da TV Cultura, onde a expectativas para as respostas de Brown eram enormes, porém o debate acabou sendo simples e direto (foto à esquerda).
Uma apresentação polêmica e que para o mundo dos rappers é até hoje um grande exemplo, foi a de MV Bill no programa Domingão do Faustão da Rede Globo, onde o cantor usou rimas contra a TV pública, deixando o apresentador Fausto Silva, o Faustão, atordoado no meio do palco.
Na opinião de Maria Amélia, editora-chefe do programa Manos e Minas da TV Cultura, a hesitação do grupo Racionais em não falar com a imprensa no começo da carreira, talvez possa ser uma das causas pela qual hoje o rap não tem um espaço merecido na TV, rádio e impressos.
Nos dias de hoje na TV aberta, apenas o Manos e Minas de Maria Amélia traz a cultura do rap para o público. Há alguns anos o programa YO! da MTV foi extinto da programação da emissora. Manos e Minas foi encerrado em agosto desse ano, porém muitos manifestos dos fãs e participantes do movimento hip-hop reivindicaram a volta do programa, que já está sendo reorganizado por Maria Amélia, a qual ficou surpresa com tantos protestos, “foi muito forte e abrangente, nunca imaginava que poderia ter sido daquela forma”, diz a produtora.
Hoje o programa alcança além de São Paulo, uma parte de Minas Gerais e outras partes do Brasil. Manos e Minas é sem dúvida é um emancipador do rap para com a sociedade. Para Maria Amélia o grande diferencial do programa é a de trazer o outro lado da preferia,  Por essas e outras que Manos e Minas acabou se tornando uma referência para o movimento.

Foto: Elaine Caldas

Já na rádio temos apenas um representante, a exemplo da TV aberta, a estação 105,1 fm, é voltada  para o rap, o samba de raiz, reggae e black music, e hoje é uma das estações mais ouvidas no Estado de São Paulo, com mais de 4 milhões de ouvintes.  A programação da rádio conta com o programa Rap Du Bom de muita audiência, que tem como produtor, Ivo José dos Santos, mais conhecido como Negro Rauls(foto). Ele diz que o Rap desde seu inicio sempre foi independente e nunca precisou da mídia para crescer, mas não precede dela. Segundo Rauls a mídia pode ser benéfica para que os rappers consigam transmitir seu ideal através de suas letras. “Tem que ser inteligente pra usar a mídia, não tem que ficar de brincadeirinha não, tem que ir e representar”, diz o produtor. Para Rauls a mídia também não se interessa pelo rap, por isso o caminho dos dois ficou tão restrito como é hoje.
Negro Rauls acredita que as mídias alternativas são um meio muito mais interessante para a divulgação dos trabalhos dos novos e velhos representates do movimento. Um caso muito curioso dessa ligação entre o rap e as mídias alternativas, foi o caso de Emicida, novo rapper brasileiro que em 2009, divulgou no Youtube, uma das suas músicas, Triunfo e teve mais de 600 mil acessos, tornando-se um sucesso nacional. Hoje Emicida é um dos rappers mais conhecidos do Brasil, um jovem que antes do sucesso na internet era apenas conhecido pelas batalhas de rimas em pequenos festivais em São Paulo.
A exemplo de alguns grupos de rap do Brasil o grupo Public Enemy, dos Estados Unidos, também usa do rap para se manifestar contra a mídia. Chuck D e Flavor Flav fazem sucesso no mundo todo, com letras de duras criticas a sociedade e a política, tornando assim mais um na lista dos que não costumam ser capas de revistas ou personagens de uma reportagem em uma TV.

Um forte concorrente
Outro aspecto que pode ter acarretado essa diminuição de espaço do rap na mídia, é o fato do funk ter entrado com tudo nessa ultima década. A exemplo do rap, o funk vem da periferia e conseguiu entrar nas rádios dos jovens brasileiros.
Das favelas do Rio de Janeiro, o funk rapidamente migrou para a cidade de São Paulo, onde hoje é referência, diversos bailes e festas tomam conta da metrópole. Para Negro Rauls, o funk tomou um espaço muito importante do rap. “O nosso público-alvo são os jovens, queremos resgatar a auto-estima dessa molecada, mudar a cabeça deles pra melhor, mas hoje eles querem o que? O funk que não traz nada de produtivo”, diz Rauls.
Já para Maria Amélia, o funk pode caminhar junto com o rap sim, “claro que o rap tem uma ideologia para transmitir, te faz pensar, mas não tem como negar que o funk é um ritmo que te faz dançar?”, diz a produtora.
A questão que fica é se no futuro teremos uma trégua nessa relação conflituosa entre o rap e a mídia, onde o movimento possa transmitir seu ideal e a imprensa consiga de certa forma divulgar mais essa cultura periférica que hoje é tão popular dentre os jovens e adultos, mas não conta com o apoio de muitos.

Por Fábio Borges.

Veja Abaixo como foi a apresentação polêmica de MV Bill no programa, Domingão do Faustão.


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