quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Música da Liberdade de Expressão

Com linguagem e letras características, o rap leva a sociedade a refletir


Considerado por muitos como música de pobre e até mesmo de bandido, o rap tem conquistado cada vez mais espaço e hoje consegue atingir todas as classes sociais, as ideias tem se expandido, sendo disseminadas por toda parte. “É tudo nosso!”, expressão frequentemente usada pela galera do rap, é um grito de liberdade de um movimento que não se limita, não se fecha e não se esconde, pelo contrário, se expõe e se mantém firme no cenário musical.
  
Foto Divulgação
   “Rap é a música da liberdade de expressão”, afirmou o DJ KL Jay (foto), integrante do grupo Racionais MC’s. A ideologia é simples, cada um a sua maneira, de acordo com sua vivência, transmite, por meio de suas letras, a realidade, com o intuito de informar a população, conscientizar, protestar ou simplesmente mostrar sua música, seu trabalho. Suas letras costumam incomodar, talvez porque, como diz o velho ditado, “a verdade dói”. Com palavras fortes, rimas combinadas com uma boa batida, os rappers alcançam a rapaziada e levam muitos a pensar, a refletir. “Potencializa moleques analfabetos que não sabem de nada e postam uma letra de postura, de ideologia, de respeitar a mãe e o pai...”, disse o escritor e rapper Ferréz.
  Ao contrário do que muitos pensam, as canções não são de apologia ao crime ou incitação ao uso de drogas, são histórias onde o bandido nunca tem um final feliz, críticas ao sistema e valorização do ser humano. O Oitavo Anjo, do Grupo 509E, por exemplo, diz Acharam que eu estava derrotado/ Quem achou estava errado/ eu voltei, tô aqui, se liga só, escuta aí/ ao contrário do que você queria, tô firmão, tô na correria/ sou guerreiro e não pago pra vacilá, sou vaso ruim de quebrar...”, a música mexe com a auto-estima, assim como em Vida Loka, parte I, do Grupo Racionais MC'S: “Fé em Deus que Ele é justo! Ei irmão, nunca se esqueça/ Na guarda, guerreiro levanta a cabeça, truta/ Onde estiver, seja lá como for/ Tenha fé, porque até no lixão nasce flor...”. Críticas ao preconceito racial também podem ser encontradas em diversas letras, o Rappin Hood canta em Caso de  Polícia: “Se você for preto como eu ou meu irmão/ Parado é suspeito, correndo é ladrão” e valoriza a cor em Tributo às Mulheres Pretas,  “...a todas as deusas do Ébano/ deusas da beleza/ as nossas rainhas/ essas são as nossas mulheres pretas”.
Nesses trinta anos do movimento no Brasil, como tudo na vida, aconteceram mudanças. Há mais artistas, mais CDs sendo gravados de forma independente, o público também cresceu e o rap é mais respeitado entre os profissionais de outros estilos musicais. Para KL Jay, uma das mudanças foi a mentalidade de serviço social. “O protesto continua, é a mesma coisa, mudou o jeito de fazer. O protesto é o mesmo, só que agora a gente não tá mais com medo, medo de alcançar, de chegar”. Para o DJ, a nova geração, na sua maioria, tem a mesma ideologia, só que não tem medo de aparecer e até mesmo de ganhar seu dinheiro e se estruturar na vida por meio de sua música. “Não é porque você veio de uma classe desfavorecida, que você vai ter medo de crescer”, disse o rapper.
Foto Divulgação

  Um dos nomes dessa nova geração é o Emicida, com  mais de 27 mil seguidores no twitter, é conhecido pela expressão “A Rua é Nóis”, em Triunfo, o rapper canta: “...Milhares de olhares imploram socorro na esquina/ No morro a fila anda a caminho da guilhotina/ Várias queima de arquivo diária com a fome/ E vão amontuando os corpo de quem não tem sobrenome/ Eu vi, com os próprios olhos a sujeira do jogo/ Minha conclusão é que muito buzo ainda vai pegar fogo...”. 


  O lançamento da mixtape Emicidio, do Emicida, no dia dezesseis de outubro deste ano, reuniu  gente de todas as classes, mostrando que o rap vem quebrando barreiras. A questão do preconceito é que a galera do gueto vai até o bairro de classe média pra curtir um show como esse, mas o pessoal do bairro nobre não vai pra periferia, ainda existe o medo, “medo do que eles não conhecem”, afirmou Mirella, uma das pessoas que lotou o estúdio EMME, em Pinheiros. Mas, aos poucos, o cenário está mudando, porque a ideologia une as pessoas.


  Com linguagem das ruas, o rap é um estilo próximo das pessoas simples, os discursos cantados são verdadeiras poesias que levam esperança e coragem para aqueles que tem sede de justiça. É mais que um estilo musical, é um estilo de vida.


 Por Lidiane Carvalho.

               

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