sábado, 6 de novembro de 2010

Rima Positiva

 
Após enfrentar resistências e preconceitos, o rap gospel ganha mais espaço e desperta interesse na sociedade.


   Foi-se o tempo em que um indivíduo que entrasse em uma igreja se depararia com um repertório recheado de cânticos tradicionais escritos em hinários que eram acompanhados apenas do som do órgão. Com o passar dos anos, a música gospel se modificou bastante, mas claro, sem perder a base bíblica. E hoje é um setor que movimenta bilhões de reais por ano e tem cerca de 50 milhões de ouvintes só no Brasil.
  O segmento gospel tem origem nos Estados Unidos e se tornou referência no cenário musical norte americano lançando nomes como Aretha Franklin, Ray Charles e um de seus divulgadores mais conhecido Elvis Presley.

Foto Divulgação

  No Brasil o termo gospel - denominador de todo tipo de música cristã - foi usado pela primeira vez nos anos 80 pela gravadora Gospel Records. A popularização do gênero no país cresce desde então, e cada vez mais tem chamado atenção de gravadoras nacionais a fim de investirem nesse segmento bilionário.
  O mesmo aconteceu com o rap gospel. Apesar de já ter cerca de 20 anos, a história do movimento no Brasil ainda não foi contada de forma sistematizada. Há controvérsias sobre a origem do movimento, porém não se pode negar que um dos precursores no país é o rapper Dj Alpiste (foto). “Percebi que tinha vários ritmos de música, e que não havia rap nas igrejas, então comecei a escrever algumas letras, procurei pessoas dentro da igreja para montar um grupo. Foi quando tive a oportunidade de entrar para banda Kadoshi, assim que tudo começou”, relembra o cantor, que foi um dos pioneiros na divulgação do rap nas igrejas nos anos 1990. Mais tarde, veio seu primeiro CD solo, Transformação, lançado em 1997, vendeu milhares de cópias e hoje, coleciona mais de 10 CDs.
  Para quem acha que não existe preconceito dentro das igrejas está muito enganado, Alpiste relembra que quando partiu para o trabalho solo enfrentou algumas resistências por causa de suas letras polêmicas. “Tudo que falo em minhas letras vira polêmica, pois tenho muita convicção das coisas que acredito e não abro mão dessas verdades dada por Deus”, comenta. Na questão letras, não há como discutir, o rap desde sua existência foi de certa forma mal interpretado pela sociedade. Consequência desse fator é a forma que alguns rappers abusam nos relatos de suas vivências dentro da periferia, criando letras que podem parecer agressivas a muitos que vivem fora dessa realidade.
  Mas como diferenciar o rap gospel do secular? Segundo Cacau, vocalista do Rap Sensition, a rima, o estilo, a base, a levada, o beat usados sãos os mesmos, o que vai diferenciar é o caráter cristão embutido nas letras. “A diferença é o conteúdo, fazemos música para as pessoas sentirem satisfação ao ouvir. E não apologia ao crime, drogas e sexo que muitas vezes estão estampados nas letras, isso é um conteúdo muito desagradável, comenta o rapper.
  Para os cantores que fazem rap gospel existe um fator determinante: ter a responsabilidade de escrever o que prega e não apenas entoar rimas positivas. “Quem faz rap popular não tem essa obrigatoriedade, muitos falam o que pensam, sem nunca terem passado pela vida do crime”, complementa Alpiste.
  Há também quem critique esse lado espiritualizado das letras. “Eu vou pagar caro por estar falando isso, mas acho que o rap gospel é separatista. Parece que estão em uma redoma, ficam separados dos demais. Pra mim, isso é uma pretensão, apenas um rótulo”, acredita KL Jay, Dj do grupo Racionais Mc´s.
  Cacau defende a ideia de que o preconceito do meio secular se deve a forma religiosa excessiva com que os cantores usam em suas letras. “Essa é a minha indignação, as pessoas têm preconceito, pois alguns rappers ficam citando vários textos bíblicos, falando de personagens que as pessoas de fora não conhecem, ou seja, não vão entender a mensagem que queremos passar”, afirma.
  Ideias e letras que falam das dificuldades do dia a dia, das superações, da conversão do caminho errado que era trilhado, das experiências com Deus têm o mesmo objetivo no meio gospel: usar como instrumento de resgate de jovens desiludidos com a realidade em que vivem e apresentá-los para a liberdade de uma vida cristã sem padrões religiosos.

  Por Bárbara Sousa.
 




Dj Alpiste - Depois do Casamento





Rap Sensation - Meus 80

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